domingo, 29 de janeiro de 2012

Escolhendo um Cônjuge

Por: Stephen Kaung

A família não é uma ideia humana – é um conceito divino. Faz parte integral do propósito de Deus na criação e, também, na redenção. De acordo com Atos 16.31, é a unidade básica para a salvação:
“Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa”.

Sendo a família algo tão importante, sua formação deve ser tratada como um assunto muito sério. Se quisermos ver o propósito de Deus cumprido na família, se quisermos ver a glória de Deus manifesta na família, devemos ser cuidadosos, diante do Senhor ao formarmos uma família.

Isso é muito importante, pois a escolha do cônjuge não afetará somente o futuro de sua família, mas também a segunda geração e, talvez, ainda outras. Pode influenciar a Igreja, a sociedade e, assim, todo o mundo; mais do que isso, pode afetar o propósito e a glória de Deus.
Há uma história muito bonita na Bíblia a respeito de como escolher um cônjuge, que gostaríamos de usar como ilustração. Encontra-se em Gênesis 24.

O Casamento se Origina em Deus

Em primeiro lugar, descobrimos que foi Abraão quem iniciou a busca pela esposa para Isaque. Abraão, nessa história, representa Deus. Deus é o originador do casamento, é o originador da família. No início, quando criou o homem, ele disse: “Não é bom que o homem esteja só. Far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea” (Gn 2.18). Em relação a tudo o que diz respeito ao casamento, à união entre duas pessoas, precisamos reconhecer que a iniciativa deve vir de Deus.

Física e psicologicamente, quando o jovem chega a determinado ponto, ele começa a sentir necessidade de uma companheira, de uma família. Diante disso, ele pode pensar: “Essa é uma necessidade humana. Por isso, devo sair por aí e tentar supri-la”. Como cristão, porém, você deve lembrar-se de uma coisa: essa necessidade vem de Deus. Ele o criou de maneira tal que sinta essa falta.

Como é algo que vem de Deus, a primeira coisa a fazer não é tentar supri-la por conta própria, mas voltar-se para ele e dizer-lhe: “Senhor, tu colocaste essa necessidade dentro em mim; agora, tu deves supri-la. O Senhor vai encontrar o cônjuge certo para mim. Estou esperando que tu escolhas meu cônjuge”.

Em certo sentido, somos nós que escolhemos; mas em outro, não. É Deus quem escolhe nosso cônjuge. Por isso, não pense que é embaraçoso levar tal assunto a ele. Como crentes, gostamos de levar cada problema que temos a Deus; essa, porém, dentre todas as nossas necessidades, é uma que afetará toda a nossa vida.

Vá à Minha Terra Natal

Abraão chamou seu mordomo e o fez jurar, dizendo: “Não tome mulher para meu filho dentre as mulheres dos cananeus onde eu habito agora. Volte à terra da minha parentela e tome de lá uma esposa para meu filho”. Aqui descobrimos o segundo princípio.

O servo de Abraão representa o Espírito Santo. O propósito é de Deus, e o Espírito Santo é quem opera. Se encomendar esse assunto a Deus, você descobrirá que o Espírito entrará em ação. Porém, se não o encomendar ao Pai Celestial, o Espírito Santo não terá a oportunidade de trabalhar em seu favor. Nesse caso, você terá de trabalhar por si mesmo. Quantos jovens estão se matando de trabalhar nesse assunto! Quão facilmente são enganados; quão facilmente caem em uma armadilha e não conseguem livrar-se dela! Mas, se levarmos esse assunto ao Pai Celestial, o Espírito Santo agirá por nós.

O servo, então, começou a agir. Havia um princípio claro: “Não tome esposa dentre as mulheres dos cananeus, mas volte à minha terra natal”. Deus nos deu um limite, uma esfera de ação. Dentro desta esfera, o Espírito Santo procurará um cônjuge para você. Se você tentar sair desse limite, o Espírito Santo não estará lá trabalhando em seu favor. O limite é: vá para minha terra natal, entre a minha parentela. Espiritualmente falando, significa que Deus estabeleceu um limite para cada pessoa dentro do qual, pelo Espírito Santo, elas podem buscar um cônjuge: entre a parentela, entre crentes, entre aqueles que são da família de Deus.

Não Vos Ponhais Em Jugo Desigual Com os Incrédulos

Em 2 Coríntios 6, Paulo diz: “Não vos ponhais em jugo desigual com os incrédulos”. Nós, crentes, somos exortados a não nos prendermos a um jugo desigual com os incrédulos, porque, numa família, num casamento, marido e mulher são colocados juntos por toda a vida. A seguir, ele dá várias razões para isso, dentre as quais queremos destacar uma.

“Que ligação há entre o santuário de Deus e os ídolos? Porque nós somos santuário do Deus vivente…” No que diz respeito a nosso propósito de vida, somos o templo de Deus. Estamos aqui para permitir que Deus viva em nós e para servi-lo. Mas, no que diz respeito às pessoas deste mundo, elas servem aos ídolos, a outros interesses e senhores. Não há concordância.

Se você está se exercitando nesse assunto de encontrar seu cônjuge, não vá às filhas dos cananeus. Em outras palavras, não encontre seu cônjuge entre pessoas que não servem ao Senhor, mas entre aqueles que são da família de Deus.

Alguns dirão: “Bem, se eu tentar encontrar um cônjuge entre os incrédulos, eu posso levá-lo a Jesus”. Um dia, uma irmã foi até Spurgeon, aquele grande pregador, e perguntou-lhe: “Qual é o problema em eu me casar com um incrédulo? Eu poderia levá-lo ao Senhor. Isso não é bom?”

Spurgeon disse: “Tudo bem, vamos fazer uma coisa”. Havia uma mesa na casa. Ele pediu à jovem irmã para subir na mesa. Ela não sabia por que ele queria que fizesse aquilo, mas atendeu ao pedido e ficou de pé sobre a mesa. Então, Spurgeon estendeu a mão e disse-lhe: “Me puxe para cima”. No entanto, a irmã é que foi puxada para baixo. Ela não pôde puxar Spurgeon para cima da mesa.

Então, Spurgeon falou: “Se você quiser se casar com um incrédulo, isso é o que acontecerá. Você pensa que pode puxá-lo para cima, mas você será puxada para baixo”.

Muitas famílias terminaram em grandes tragédias porque, logo no início, aquele que era crente menosprezou a Palavra de Deus. O Espírito Santo sempre opera segundo a orientação da Palavra. Não devemos esperar que ele trabalhe por nós em desacordo com o que Deus afirma.

Contudo, se obedecemos a Deus, podemos contar com sua operação em nosso favor.

O Lugar da Graça

Observe como o servo de Abraão foi encontrar a companheira para Isaque. Mesmo na cidade de Naor, havia muitas mulheres, muitas virgens que ainda não eram casadas. O servo era um estrangeiro naquela cidade. Como iria encontrar uma mulher para o filho de seu senhor ali?

Naqueles dias, normalmente havia um poço fora da cidade ou na praça. Era o lugar para onde as mulheres iam com seus cântaros com a intenção de tirar água e levar para casa. Assim, quando o servo veio à cidade de Naor, ele sabia aonde ir. Ele foi ao poço, fez com que os camelos se ajoelhassem e, então, começou a orar.

O que o poço representa? Nas Escrituras, poço sempre indica graça. Do poço, vem água viva, o que representa o Espírito da vida. Isso é graça.

Assim, aonde o servo deve ir? Em primeiro lugar, à cidade de Naor; em segundo lugar, ao poço. Espiritualmente falando, podemos dizer que o poço é onde os crentes se reúnem, em torno do Senhor, onde podem receber a graça de Deus. É para esse lugar que você deve ir para encontrar um cônjuge. Você não deve ir a uma danceteria, a um cinema, a uma pista de corridas, a um comício político ou a uma reunião social para encontrar seu cônjuge, mas à igreja, ao local onde o povo de Deus vai buscar água, aonde vai buscar a vida de Deus. É nesse lugar que você encontrará seu(sua) companheiro(a) para a vida toda.

Se você está procurando um cônjuge, confie que o Espírito Santo o guiará e o conduzirá; porém, você precisa ir ao lugar certo. Não vá ao mundo para tentar encontrar um companheiro, vá ao povo de Deus. Lá, enquanto você busca água e aprende a servir juntamente com os santos, o Senhor lhe revelará quem é seu cônjuge. Apenas ore e confie isso ao Senhor.

Dois Extremos

Podemos tornar esse assunto de escolher um cônjuge muito espiritual ou meramente humano. Podemos ir para os dois extremos. Algumas pessoas o tornam completamente humano, deixando Deus de lado. Eles dizem: “Bem, tenho uma necessidade. É algo físico, algo que faz parte deste mundo. Sou eu que devo escolher um companheiro”. Então, eles vão em frente e tornam-se muito ativos, procurando um cônjuge. Vão a todo tipo de reunião social para ter mais oportunidades de escolher. Ficam muito envolvidos nesse assunto, mas nunca oram. Esse é um extremo.

Podemos ir, também, para o outro extremo e nos tornar muito espirituais — superespirituais, pseudoespirituais. Isto é, você confia o assunto ao Senhor e deixa tudo para ele. Com isso, você se assenta e fica muito passivo. Você nem mesmo coopera com o Espírito Santo. Isso é ser pseudoespiritual. Você sabe, em todas as coisas espirituais, precisamos ser passivamente ativos. É assim em todas as coisas espirituais. Seja lendo as Escrituras, seja fazendo outras coisas ou escolhendo um cônjuge, nossa atitude precisa ser sempre passivamente ativa. Isso significa que precisamos confiar esse assunto ao Senhor e estar alerta à direção do Espírito Santo, aprendendo a cooperar.

Caráter

O servo orou: “Quando as mulheres vierem pegar água, se eu disser: ‘Dá-me de beber’…” Lembre-se de que ele não tinha a intenção de perguntar a cada mulher. Ele poderia ficar lá perguntando a centenas de mulheres porque, provavelmente, centenas de mulheres iam ao poço pegar água. Se ele perguntasse a cada mulher, ficaria muito confuso. Ele simplesmente disse: “Senhor, quando as mulheres vierem, irei observá-las. Então, vou conversar com aquela que eu notar”.

Assim é que se escolhe o cônjuge. Por um lado, você confia a questão ao Senhor. Seu coração está aberto para ele. Você quer que ele escolha para você. Se você tem esse tipo de atitude e está orando, então comece a observar. Você não pede a qualquer um ou a todos, mas quando alguém vem e, de alguma forma, você sente que deve iniciar algo, nesse instante você pede.

Evidentemente, ao fazer isso, você levará em conta a aparência exterior. Embora a aparência exterior não seja tudo, ela revela mais do que muitos pensam. Quando o servo observava, ele avaliava diversos aspectos. Certamente, queria encontrar beleza, mas, em cada atitude, no modo dela de agir, ele descobriria muito a seu respeito. Se estivermos emocionalmente envolvidos, nos tornaremos cegos. Mas se pudermos ficar de lado e observar o que o Senhor fará, então tudo se resolverá.

E, de fato, Deus lhe respondeu rapidamente. “Eis que Rebeca veio”. Ela era muito bela e era uma virgem. Como o servo sabia? Ele não sabia.

Deus sabia. Ele apenas sabia que ela tinha boa aparência, mas, enquanto observava, o servo sentiu que havia um potencial ali. Havia mais em Rebeca do que apenas uma boa aparência. Algo mais foi revelado, talvez pelos seus modos, pelo seu jeito. Assim, quando ela tirou a água, o servo foi adiante e pediu a ela um pouco de água de seu cântaro para beber.

Observe o que Rebeca fez. Apressando-se, deitou o cântaro e disse: “Beba, e eu também darei de beber aos camelos”. Ela começou a pegar e despejar a água no bebedouro para que os camelos bebessem. O servo tinha dez camelos. Depois de os camelos terem atravessado o deserto, deviam estar muito sedentos. Para satisfazer a sede de dez camelos, a mulher teve de tirar muita água! Dar de beber a um homem velho é uma coisa, mas dar de beber a dez camelos é muito trabalho. Os camelos podem beber, beber e beber. Conseguem armazenar água para mais uma jornada distante.

Aqui você descobre que, a fim de encontrar uma esposa para Isaque, o servo estava olhando para algo além do físico. No que diz respeito ao físico, a mulher poderia ser de boa aparência. Além disso, porém, o servo estava em busca de caráter. Para uma mulher ser uma esposa, ela tem de ser compassiva, cuidadosa, generosa, amiga, hospitaleira, diligente. Essas marcas de caráter são muito, muito importantes. Para uma mulher dar de beber a um estrangeiro, isso é cuidado; mas sua compaixão e seu cuidado foram estendidos, não somente ao homem, mas também aos animais. Havia algo naquele caráter. Observe quão diligente ela era. Ela não estava tentando fazer o mínimo de trabalho possível. Ela não tinha medo de trabalhar. Era diligente e hospitaleira. Essa seria uma boa companheira para Isaque.

A segunda parte de Provérbios 31 é linda. Espero que todos os jovens solteiros a leiam muitas vezes. Lá, você descobrirá essa mulher cujo valor é tremendo. Que tipo de mulher ela é? Ela é diligente, cuidadosa, generosa. Ela abre os braços aos pobres e estende as mãos aos necessitados. Ela abre a boca com sabedoria, e a instrução fiel está em sua língua. Ela cuida da sua casa e não come o pão da preguiça. Seus filhos se levantam e a chamam de bem-aventurada. Seu marido também a louva dizendo: “Muitas mulheres procedem virtuosamente, mas tu a todas sobrepujas.

Enganosa é a graça, e vã, a formosura, mas a mulher que teme ao Senhor, essa será louvada”. Isso é caráter.

Aqui, então, você descobre que, na escolha de um cônjuge, não é apenas a beleza física que conta, mas a beleza interior, o caráter. Isso é muito, muito importante. Quer seja homem, quer seja mulher, certas marcas de caráter são importantes.

O Espírito de Adoração

Durante todo aquele tempo, o servo apenas ficou ali de pé e observou. Ele apenas observava como Deus trabalharia. Quando tudo terminou, ele pegou um pendente e duas pulseiras de ouro, deu-os à mulher e disse: “Qual é seu nome? De que família você vem? Há lugar para mim, meus servos e os camelos pousarmos?”

Rebeca disse ao servo que ela vinha da família de Abraão, de Naor, e que havia pousada em sua casa. Você sabe o que o servo fez? Ele se ajoelhou e adorou a Deus. O espírito daquele servo, por todo o capítulo, é o espírito de adoração.

Não faça desse assunto algo comum, que nada tenha a ver com adoração. Não. Se você confiar esse assunto ao Senhor, se esperar no Espírito Santo, se realmente andar em seus caminhos, você verá como o Espírito de Deus trabalhará e ficará apenas como alguém que observa. Isso extrairá de você adoração. A cada passo, produzirá adoração.

Quanto da nossa procura nos leva à adoração hoje? Mas isso é o que deveria acontecer. Todo o processo deveria ser uma questão de adoração, vendo Deus trabalhar em favor do seu próprio propósito. Oh, quão belo isso será!

Stephen Kaung é ministro da Palavra, conferencista e autor de vários livros. Trabalhou durante muitos anos na obra do Senhor ao lado de Watchman Nee, na China. Além de atuar em várias outras áreas do ministério, foi tradutor e publicador de muitos livros de Watchman Nee em inglês. Reside atualmente na Virgínia, EUA.

Este artigo foi adaptado de um capítulo do livro O Propósito de Deus Para a Família, Edições Tesouro Aberto, de Stephen Kaung. revista impacto-fonte

domingo, 15 de janeiro de 2012

jonh walker


John Walker nasceu em São Francisco, Califórnia, em 25 de julho de 1922. Desde muito jovem, já mostrava sinais de que não seria uma pessoa comum. Membro de uma família capitalista e próspera financeiramente, não conseguia aceitar isso como alvo para sua vida. Queria fazer algo em beneficio da humanidade. Pensou em medicina, se envolveu com o socialismo e budismo. Fez o primeiro ano de três faculdades diferentes, as quais abandonou. Tudo isso entristecia seu pai, mas ele o respeitava e ainda arcava com todas as despesas.

Aos 19 anos resolveu frequentar uma igreja. Nesta época, em uma manhã de domingo, teve a maior visitação de Deus que já experimentou em toda sua vida. Seu quarto foi tomado por uma fusão de sons, luzes e cores. A presença divina descia por aquela luz, provocando nele um profundo sentimento de reverência. Mesmo sem uma compreensão do caminho da salvação exposto nas Escrituras, abandonou seus projetos pessoais e entendeu que Deus era a resposta para sua busca desesperada pela Verdade. Para conhecer a Deus e aprender como servi-lo, se matriculou em um seminário teológico, mas também abandonou este curso, e logo no primeiro dia – não queria ser um religioso profissional.

Dois anos se passaram e, nessa busca por encontrar o Caminho, a Verdade, a Vida, começou a sofrer uma tormenta física e mental que o acompanharia por mais três anos. Procurou ajuda na Teosofia, mas foi com o livro “Praticando a presença de Deus”, do irmão Lawrence, um monge católico, que sua vida começou a se acertar. Então, entendeu que a resposta estava no catolicismo, e começou a estudar diariamente com um padre. Em pouco tempo se decepcionou, mas desta vez recebeu um conselho de seu amigo John Manchester: “Você não precisa filiar-se à igreja católica. Retenha dela o que é bom. Continue a buscar a Deus como um católico no espírito, mas de forma independente”.

Através da leitura do Diário de George Fox, o fundador dos Quakers, compreendeu que a luz que invadiu seu quarto era o mesmo Jesus das Escrituras. Mudou-se para Pasadena, Califórnia, onde morava e trabalhava como professor em uma instituição dos Quakers. Apesar de todo seu esforço, não conseguia se santificar, mas entendia que ir para o inferno destruiria o propósito de Deus para sua vida. Nesta angustia, finalmente se rendeu ao Senhor e, como no livro “O Peregrino”, um imenso fardo caiu de suas costas, enquanto contemplava a cruz de Cristo. Esse foi o testemunho de sua conversão.

Nesta época conheceu Ruth, uma linda jovem, formada na Universidade da Califórnia, muito dedicada ao Senhor, com quem veio a se casar em agosto de 1947. Logo em seguida, foram morar em uma chácara na cidade de Bloomington, com o objetivo de viver de forma simples, fora do sistema do mundo, e buscando a Deus intensamente.
Por sugestão de Ruth, começaram a ler a Bíblia juntos, diariamente, e este hábito permaneceu por toda a vida do casal. À medida que os filhos alcançavam três ou quatro anos de idade, o altar familiar ia ganhando mais um membro. Na prática, este foi um curso bíblico intensivo e diário para os filhos, que durou até o dia deles casarem. A casa não tinha televisão e nem rádio, mas liam muitos livros. Também não admitiam a mentira.

Influenciado pelo amigo John Manchester, a família experimentou uma nova etapa na busca espiritual, tendo contato com William Branham, Oral Roberts, o movimento Chuva Serôdia e Witness Lee, onde conheceu os livros de Watchman Nee. No dia seguinte ao seu batismo no Espírito Santo, recebeu uma cópia do jornal “O Arauto da Sua Vinda”, onde trabalhou por cinco anos, após venderem a chácara, em 1956.

John Walker descobrira a importância do negativo enquanto era professor de crianças junto aos Quakers, em 1947. Mas em sua própria vida, nunca havia experimentado ou se submetido a isso, e não media consequências para fazer o que estava em seu coração obstinado.

Seu filho Robert tivera várias crises renais, mas a família entendia que deveria confiar em Deus, que curaria todas as doenças. Certa vez, em 1959, Robert e sua irmã Katharine, a filha mais velha, foram para São Francisco, passar as férias na casa de uma tia. Nesta cidade, Robert teve outra crise renal e a tia pediu autorização para operá-lo, e seu irmão John Walker negou enfaticamente, querendo trazer o filho de volta para casa. Ela, por sua vez, conseguiu autorização na justiça, e o rim do menino foi tirado. Este acontecimento foi decisivo e um dos principais motivos que provocou a mudança para o Brasil, pois John queria criar a família de acordo com sua consciência e entendimento da vontade de Deus. Outro motivo seria o desejo de proclamar a visão profética e as revelações que estava tendo na Palavra de Deus. Partiram em 4 de fevereiro de 1964, mais uma vez ajudados pelo amigo John Manchester, que providenciou o dinheiro necessário.

No Brasil, havia um missionário de nome Bob Scheibe, que providenciou todos os meios legais junto ao Consulado, para que a família pudesse vir como imigrantes e não como missionários ligados a uma instituição religiosa. Ficaram em Lagoa Santa, Minas Gerais, próximos à família Scheibe, mas a visão que Deus havia dado era para irem para Goiás. Bob Scheibe, logo em seguida, mudou para Montalvânia, na divisa de Minas Gerais com Bahia, onde John Walker conheceu Muir - um grande amigo e missionário sueco. De Lagoa Santa, a família Walker partiu para Rubiataba, Goiás, onde desenvolveram um ministério de distribuição gratuita de literatura, além de seminários intensivos. Vários lideres atuais participaram destes seminários na longínqua Rubiataba.

Podemos dizer que sua visão do propósito de Deus estava baseada nas seguintes verdades:

1. Oração e Ministério ao Senhor
2. Restauração da Ceia do Senhor, sem hipocrisia e sem legalismo
3. Entendimento do modelo de Deus para a família cristã
A importância do negativo (lei) na educação dos filhos
4. As três testemunhas (1 Jo 5.6-8)
5. As três festas judaicas, com ênfase na festa dos Tabernáculos
6. Entendimento correto de Israel no plano de Deus (Rm 11 e Ef 2.11-22)
7. A necessidade de um novo agora (Ef 3.4-6) – a 3ª. Reforma

Todos esses temas eram ensinados nos seminários e também proclamados pela família Walker através do ministério de literatura e ministrações em várias igrejas que os convidavam.

Em 1986 John Walker mudou-se para Jundiaí/SP e, a partir daí, muitos problemas aconteceram na família, provocando o enfraquecimento nas igrejas em Rubiataba e Jundiaí. Seu ministério sofreu um imenso declínio e ele permaneceu sem atividades até 1999, quando foi convidado por José Carlos Marion a ministrar um curso bíblico em sua igreja, o qual funcionou por 5 meses. Em novembro de 1999, junto com seus filhos, organizaram uma seqüência de seminários na região de Campinas, entitulado “Para onde vai a igreja no próximo milênio?”

John Walker morreu em 29/01/07 e Ruth Walker em 27/07/2008, deixando uma série de questionamentos acerca de seu ministério. Devido às crises familiares e ministeriais que marcaram seus últimos anos, muitos perguntam se ele cumpriu seu papel nos planos de Deus, como estão seus filhos em relação ao propósito original de virem para o Brasil e sobre os que estão fazendo agora.

Recentemente fiz essas mesmas perguntas para o casal Robert e Geralda Walker, que puderam contribuir bastante para que tenhamos este entendimento. Antes mesmo de começarmos a conversa, Geralda logo afirmou: “Eu devo minha vida a esta família. Foi na casa deles onde aprendi a falar até mesmo o português!”. Falou também que ouviu de uma outra nora: “John Walker foi responsável pela integridade espiritual de meus filhos” – isso porque já está tão acostumada a ouvir críticas ao seu falecido sogro. Já o Robert, enfatizou que o pai nunca conseguira trabalhar em equipe e que o comportamento quase ditatorial foi responsável pelos muitos problemas que tiveram:
• A união da família foi arrebentada
• A mensagem principal (sobre a família) fracassou
• Todas as noras tiveram problemas com ele
• Alguns filhos deixaram até mesmo de acreditar no ministério do pai
• A sra. Ruth desenvolveu uma obediência tão forte que anulou a sua própria personalidade, e pensava em termos de se John Walker ia querer ou não para tudo o que fazia.

Em relação ao ministério da família, Robert entende a comunhão com Eduardo Ávila (de Botucatu), Pedro Arruda (de Barueri), Paulo Manzini (de Jundiaí) e Gerson Lima (de Monte Mor), como uma abertura ministerial, e que estes irmãos vem contribuindo muito em relação aos problemas que a família Walker sofreu em um passado não muito distante.

Atualmente ele não entende que exista uma participação isolada da família Walker nos planos de Deus, mas que eles fazem parte do propósito de Deus para a igreja em nossos dias. A maior parte do que John Walker pregou, ele mesmo não experimentou, pois foi um homem de visão profética, muito à frente de seus dias – mas lançou poderosas sementes que germinarão e darão seu fruto em um futuro próximo. Mas este fato não tem relação nenhuma com os problemas pessoais dele, pois isso aconteceu com a maioria dos profetas bíblicos – falam de coisas que se cumprirão em tempos futuros.

Sobre o que precisamos atualmente, ele diz que a ditadura nunca é o caminho; que precisa ser corrigida a falta de unidade entre os ministérios profético e pastoral; e também que a geração atual e a anterior precisam ter mais afinidade, buscando a Deus juntas.

Através da Revista Impacto, do Curso de Preparação Profética em Monte Mor/SP e Baixa Grande/BA, dos encontros de jovens nas férias de julho e na virada do ano, e dos encontros regionais na Bahia, Rio de Janeiro e Goiás, muitas pessoas vem sendo abençoadas e testemunhando sua afinidade com os mesmos pontos enfatizados pela pregação de John Walker. Encarando com maturidade os seus pontos negativos, John Walker foi uma peça chave para a edificação da igreja no Brasil. Não tentava esconder suas fraquezas, o que deixava alguns irmãos escandalizados. Mas podemos dizer que foi um homem fiel ao chamado de Deus, e pagou um preço alto por acreditar e falar de coisas que poucos compreendiam.

em 2009, por Ezequiel Netto

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Classificação de países por perseguição 2011

Classificação de países por perseguição

CONFIRA A NOVA CLASSIFICAÇÃO DE PAÍSES POR PERSEGUIÇÃO!

Todos os anos, a Portas Abertas publica uma lista com os os 50 países mais opressores ao cristianismo. Em 2012, os cinco países onde é mais difícil viver como cristão são:
1. Coreia do Norte
2. Afeganistão
3. Arábia Saudita
4. Somália
5. Irã



A Portas Abertas desenvolveu a Classificação de países por perseguição com base em suas experiências de campo, pois precisava de algum padrão para comparar a situação da Igreja cristã em vários países. Por exemplo: como comparar a perseguição na China com a da Arábia Saudita? Esse padrão precisava ser o mais objetivo possível. E a Classificação tornou possível distinguir situações e delinear prioridades para ações e projetos. Esse é o valor fundamental do levantamento: uma forma de determinar onde a necessidade é mais urgente.

O trabalho é renovado todos os anos pelo departamento de pesquisa da Portas Abertas Internacional e visa fundamentar as ações empreendidas no campo. Embora os métodos empregados na confecção da Classificação procurem ser o mais fidedignos possível, a lista não tem a pretensão de ser vista como um trabalho acadêmico strictu sensu. Desse modo, a Portas Abertas recomenda aos usuários que tomem a Classificação mais como um elemento de mobilização e conscientização do que como um relatório acadêmico.

Como a Classificação é formada

Ao chegar a um país, a Portas Abertas procura os cristãos locais e lhes pergunta como pode ajudá-los. Em 95% dos casos, esses cristãos pedem oração. O segundo pedido sempre é por Bíblias, materiais de estudo e treinamento.

A Portas Abertas seleciona os países que irá ajudar a partir dos seguintes critérios:

• A Igreja local pode extinguir-se caso não haja ajuda externa
• A obtenção de Bíblias não é possível por meios oficiais
• Existe possibilidade logística (condições de transporte, armazenagem e distribuição dos materiais)
• O país está em localização estratégica e recebeu a solicitação de irmãos locais

A Portas Abertas não atua nos 90 países pesquisados. Também não são necessariamente desenvolvidos projetos nos 50 países da lista, mas dentre os 90 países, cerca de 50 possuem projetos de campo sendo desenvolvidos pela Portas Abertas.

Atualmente, a pesquisa é realizada por meio de alguns contatos, mas a Portas Abertas Internacional está em vias de obter o apoio de um órgão externo que endossará a lista. A Classificação hoje é o resultado de um questionário específico, desenvolvido com perguntas padronizadas sobre:

• A situação legal dos cristãos no país
• A atitude do regime político em relação à comunidade cristã
• A liberdade da Igreja para organizar eventos
• O papel da Igreja na sociedade
• O tratamento de cristãos considerados individualmente
• Outros fatores limitadores da vida de igrejas e cristãos.

As respostas a essas questões oferecem um bom vislumbre sobre a falta de liberdade de opção religiosa e prática da fé. Há 49 questões desse tipo para serem respondidas. São perguntas de múltipla escolha e a cada resposta é atribuída uma avaliação em pontos.

Quanto mais pontos um país recebe, pior a situação. Dessa forma, a Portas Abertas resolveu o problema de comparar países entre si e montou uma lista com maior objetividade. Com uma rede internacional de informantes, a organização publica uma atualização da lista todos os anos.

Os dados são coletados por meio de alguns contatos:

• As igrejas locais nos países onde há perseguição, a fonte mais importante de informações
• As bases de projeto, que informam sobre os países onde trabalham
• Especialistas em várias áreas de conhecimento nesses países
• Viajantes, que são convidados a colaborar com suas impressões sobre a situação atual do país
• Funcionários da Portas Abertas Internacional, que levam o questionário em suas viagens e pedem a diversos contatos que o preencham.

O procedimento é executado desde 1993. Desde janeiro de 2003 a Classificação de países por perseguição é atualizada uma vez ao ano. fonte portas abertas

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

História da Igreja – Parte 1 – Com Sal ou Sem Sal?


Por: Christopher Walker
Raízes – Lições da História da Igreja Para os Nossos Dias.
É um principio indiscutível que para se descobrir o propósito da existência de um indivíduo, entidade, nação ou até mesmo de toda a humanidade, é preciso começar analisando a sua história, suas raízes. Não é diferente em relação à Igreja, que na verdade é o conjunto de pessoas que atenderam ao chamado de Deus para saírem para fora de um mundo cada vez mais à deriva no caos e degeneração resultantes do pecado, a fim de reencontrar através da obra redentora de Jesus o caminho de volta ao propósito original de Deus para a humanidade e para toda a criação.
É nosso objetivo através destas crônicas sobre épocas passadas da história da Igreja descobrir algumas das nossas raízes, e compreender melhor a razão da nossa existência.
Com Sal ou Sem Sal?
O que você sabe a respeito da igreja dos primeiros séculos?
Se você já leu o livro de Atos dos Apóstolos, sabe que era uma igreja unida, despreocupada com estruturas, prédios, organizações, títulos, cursos, e tantas outras coisas sem as quais hoje não saberíamos fazer nada.
Aquele grupo de cento e vinte pessoas que acreditaram na promessa do homem que fora crucificado, que ressuscitara e que fora embora para o céu à vista de alguns deles, ficou esperando dentro de um cenáculo durante dez longos dias e recebeu o Espírito Santo exatamente como Jesus prometera. A partir deste momento, e deste cantinho desprezado do Império Romano, este bando de pessoas incultas que já não contava com o seu poderoso líder carismático, começou sua trajetória triunfante, espalhando-se por todo o Império e além dele, e chegando a representar no ano 300, segundo estimativas, de 5 a 10% da população do mundo civilizado.
Em muitas regiões, o cristianismo penetrou em todas as cama das da sociedade. Embora tivesse começado com pessoas humildes e incultas, a fé cristã atingiu todos os níveis sociais, e seus seguidores não puderam ser ignorados. Sobreviveram a diversas ondas de perseguição e oposição, e continuaram a avançar apesar de não contar com campanhas publicitárias, ou mesmo com qualquer estratégia evangelística explícita. Sua força pode ser avaliada pela ameaça que representou para os poderosos imperadores romanos, e que desencadeou as grandes ondas de perseguição.
Por que os cristãos dos primeiros dois séculos causavam tanta oposição e reações contrárias no mundo em que viviam?
As primeiras perseguições que estão registradas no livro de Atos foram causadas pelos judeus religiosos que não reconheciam em Jesus o cumprimento de todas as profecias e promessasdas suas próprias Escrituras, e que se sentiam ameaçados e condenados pela realidade e autenticidade destes que proclamavam o cumprimento atual de todos os sím bolos, rituais e sombras da Velha Dispensação.
Mas por que os romanos, gregos e outros gentios também se levantavam contra este novo caminho?
Os romanos, que em geral eram tolerantes de outras religiões, contanto que as pessoas observassem os ritos e práticas que implicavam em submissão ao imperador romano. E era aí mesmo que estava uma das principais acusações contra os cristãos — sua teimosia e falta de respeito para com a autoridade romana.
Plínio, o Jovem, um oficial romano que foi enviado no ano 110 para governar a província de Bitínia (atual Turquia), foi quem deixou nos seus escritos um dos relatos pagãos mais antigos sobre os cristãos.
Na sua primeira experiência de interrogar os cristãos ali, como não sabia o que fazer ou como tratá-los, resolveu escrever para o imperador Trajano, pedindo conselho. “Não sei de que crime são culpados, ou o que preciso investigar ou castigar”, ele escreveu. Disse que estava incerto se quem admitiu ser cristão já era merecedor de castigo, ou se precisava ser acusado de outro crime também.
Mas enquanto isso, perguntou aos acusados se eram cristãos. Quando alguns confessaram que eram, ele perguntou uma segunda e depois uma terceira vez. Quando confirmavam, mesmo diante da ameaça de castigo, Plínio ordenou que fossem condenados. “Pois não tinha dúvidas de que, fosse o que fosse que estavam admitindo, a obstinação e perversa inflexibilidade deveriam ser castigados.”
Para ele, esta atitude cristã era uma espécie de insanidade contagiosa ou desordem mental que resultaria inevitavelmente em crimes contra o Estado romano. No final da sua carta, disse: “Esta superstição contagiosa não se confina nas cidades apenas, mas já espalhou sua infecção para as aldeias do campo.” Trajano posteriormente recomendou Plínio pela atitude tomada.
Era assim, aparentemente, que os romanos consideravam os cristãos: como um grupo seguidor de superstição perigosa. Nas palavras de Seutônio (escritor romano e secretário do imperador Adriano) e que foi um dos primeiros escritores pagãos a mencionar os cristãos, estes eram “uma classe de pessoas dadas a uma nova e perniciosa superstição.” Um outro historiador romano, Tácito, reconheceu que Nero inventou as acusações de que os cristãos haviam iniciado o incêndio de Roma, mas demonstrou pouca simpatia por este povo “notoriamente depravado”.
“O fundador deles, Cristo, fora executado no reinado de Tibério pelo governador da Judéia, Pôncio Pilatos,” ele escreveu. “Mas apesar da derrota temporária, esta superstição mortal espalhou-se não somente por toda a Judéia (onde este mal nasceu), mas até mesmo em Roma. Toda espécie de práticas depravadas e vergonhosas se ajuntam e prosperam na capital.”
O que os romanos entendiam por superstição? De acordo com diversos autores romanos proeminentes, incluindo Cícero e Plutarco, era qualquer crença ou prática religiosa e ofensiva, que desviava das normas romanas. Os grupos que tinham estas religiões “irracionais” poderiam agir imprevisivelmente, sem consideração pelos ritos e tradições de Roma. Na verdade, eram exatamente as suspeitas políticas, e não necessariamente as religiosas, que preocupavam as elites romanas. Se qualquer devoto religioso continuasse a observar os ritos romanos, poderia adorar o deus que quisesse.
Os cristãos não reconheciam nenhum outro deus a não ser o Deus deles. Isto já era mal, mas também se recusavam a participar em qualquer rito religioso não cristão, a servir no exército, ou a participar de cargos políticos. Era uma recusa a comer carne durante um rito religioso romano que levou Plínio, o Jovem, a julgar aqueles cristãos em Bitínia.
Além disso, espalhavam outras idéias fantásticas sobre os cristãos, como por exemplo que eram canibais e praticavam incesto. Como o cristianismo nasceu sob perseguição, as suas práticas mais sagradas não eram abertas a não cristãos, o que favorecia as deturpações de quem não tinha qualquer contato de primeira mão. Desta forma, o ósculo santo entre “irmãos” (Rm 16.16) talvez tenha sido interpretado como relacionamento incestuoso, e a ceia onde Jesus disse para comer sua carne e beber seu sangue poderia ser entendido como algo literal.
Os cristãos também eram acusados de adorarem cabeças de jumentas, de praticarem orgias sexuais, e de serem mágicos e feiticeiros (talvez por causa dos milagres de cura, da expulsão de demônios, e da cerimônia do batismo). Estas acusações que nem sempre foram levadas ao tribunal tinham o efeito de colocar a população e principalmente as elites contra os cristãos, mas em diversos períodos durante os primeiros séculos causou ondas de perseguição por colocar o cristianismo como inimigo do Império.
Numa época da história em que (no mundo ocidental) a Igreja conquista cada vez mais reconhecimento e espaço na cultura, na política e na sociedade secular, vale a pena voltar para nossas raízes e ver como a primeira igreja obteve suas primeiras vitórias e chegou a ser uma força influente no mundo daquela época. Onde está a verdadeira força da Igreja — na presença ameaçadora de um povo não alinhado e até mal interpretado, ou daqueles que se esforçam ao máximo para se assemelharem à sociedade e cultura em que vivem?
Onde está o sal da terra?
No próximo número: Como o sofrimento dos cristãos primitivos afetava o mundo em que viviam.
Fonte de pesquisa: Christian History Magazine, Issue 57,1998, da Christianity Today, Inc.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Pecado ou Problema?

Por: Robert Louis Cole

“Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova dentro em mim um espírito inabalável.” (Sl 51.10)

“Tenho um problema”, disse a jovem senhora, um pouco envergonhada. Era o fechamento de uma reunião de oração no horário de almoço, promovida por um grande ministério na Costa Leste. Eu acabara de concluir um breve estudo bíblico e de encerrar a reunião, quando fui puxado de lado para uma oração particular.

- Qual é o problema? – perguntei.

- Eu tenho um problema – repetia ela.

- Sim. – Respondi, pensando se ela havia me escutado direito.

- Em que exatamente podemos concordar em oração?

Sua face se contraiu e lágrimas brotaram de seus olhos. – Não sei exatamente – desabafou, mordendo os lábios -, mas tenho um problema sério.

Tentei ser firme sem ser duro demais.

- Nosso Deus é um Deus de coisas específicas, não de generalidades – disse-lhe. – ficaria feliz em orar com você, mas preciso saber a natureza de seu problema de modo a orar especificamente. Ninguém mais saberá, apenas eu e você.

- Bom, na verdade, não sei qual é o meu problema – respondeu ela, como se estivesse bloqueada -, mas meu marido diz que eu tenho um problema -. Tentei novamente.

- O que seu marido diz ser o seu problema?

- Ele diz que eu não o entendo – disse ela, finalmente, agonizando a cada palavra.

- O que você não entende? – perguntei. De repente, a mulher começou a chorar convulsivamente, profundamente magoada.

- Meu marido deixa revistas ao lado de nossa cama – ela explicou, em meio a soluços. – Playboy e Penthouse, além de todas aquelas outras revistas de mulheres nuas. Ele diz que precisa primeiro olhar aquelas revistas para depois ter sexo comigo. Diz que precisa delas para se sentir estimulado.

Ela prolongou a última sentença, com lágrimas rolando por sua face.

- Já lhe disse que não precisava daquelas revistas, mas ele diz que eu não o entendo. Diz que, se eu realmente o amasse, eu entenderia por que ele precisa das revistas e, então, permitiria que ele tivesse mais revistas ainda.

- Qual a ocupação de seu marido? – perguntei eu.

- Ele é pastor de jovens.

Fiquei ali, boquiaberto, pensando no que acabara de ouvir. Estava ouvindo uma mulher me dizer que seu marido era um pastor de jovens que mantinha uma pilha de material pornográfico ao lado da cama!

- Seu marido pode ser um pastor de jovens, – disse-lhe -, mas também é um pornógrafo.

A cabeça da mulher se levantou em atenção. Foi como se eu a tivesse esmurrado diretamente no rosto. Ela jamais imaginou ouvir seu marido sendo descrito como alguém que gostava de pornografia, apesar de seu estilo de vida tê-lo transformado exatamente nisso.

Nestes tempos modernos nós não temos pecado: temos problemas. Transformamos o Evangelho em algo psicológico e, no meio do processo, eliminamos a palavra pecado de nosso vocabulário.

Mas eu tenho necessidades

Uma mulher veio a mim trazendo uma triste história. Seu marido a maltratou durante anos e, finalmente, a deixou, através de um divórcio litigioso. Membro de igreja, cristã confessa há vários anos, ela se viu só e desamparada.

Reagindo a seus sentimentos, ela saiu da cidade e passou um final de semana com um homem. Como ela mesma descreveu, ela possuía “necessidades biológicas”.

- Você tem consciência do que fez? – perguntei-lhe tão logo sentou-se em meu gabinete. A mulher foi pega de surpresa e colocou-se para trás.

- Por que, do que você está falando?

Seus olhos se arregalaram e sua face enrubesceu. Ofendeu-se por eu tê-la chamado de adúltera. Afinal, depois de ter cometido um adultério, ela era uma adúltera.

Para ela, aquilo não foi um pecado – apenas um problema, como disse.

Não falamos sobre pecado nos dias de hoje: falamos sobre problemas. A razão pela qual problemas são mais convenientes que pecados é que não precisamos fazer nada com os problemas. Se você apenas tem um problema, consegue simpatia, compreensão e ajuda profissional, somente para citar algumas coisas. Por outro lado, pecados requerem arrependimento, confissão e perdão.

Não é de estranhar que Freud queria se livrar da palavra pecado.

Resolvendo problemas biblicamente

No processo de reescrever a linguagem bíblica, fugimos da confrontação com nossos pecados. Mas, sem os enfrentar não fazemos nada com relação a eles. Todos os problemas da vida estão de algum modo relacionados ao pecado. Esta é a razão por que o homem precisa de um Salvador que o livre dos pecados como resposta a seus problemas. Deus sabia disso. Foi por isso que Jesus Cristo veio aqui para morrer por nossos pecados e ser a resposta para todos os nossos problemas.

A disciplina da igreja em nossos dias é relaxada, fraca ou inexistente. O apóstolo Paulo exigia disciplina. Se alguém se diz irmão – disse Paulo – e mantém um estilo de vida ou um padrão habitual de pecado, não mantenha amizade com ele – nem mesmo coma com ele. Sem relacionamentos.

“Mas agora vos escrevo que não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal nem ainda comais” (1 Co 5.11).

Ao contrário do que você ou qualquer outra pessoa possa pensar, este é um ato de amor e não de ódio.

Veja, os caminhos de Deus são tão altos quanto os céus estão acima da terra.

Paulo tinha a mente do Senhor quando escreveu estas palavras. Se uma pessoa que chama a si mesma de cristã continua em seu pecado sem punição e com todos os privilégios de outros membros, não terá nenhum incentivo para confrontar, confessar e afastar-se de seu pecado, além de contar com a aceitação de outros crentes.

Normalmente a pessoa que cometeu pecado admite que houve um problema, ou que ela simplesmente é uma desafortunada, mas vai chorar e reclamar quando se confrontar com a disciplina.

O lamento humano ocorre somente quando ficamos tristes por termos sido pegos. O lamento piedoso acontece no momento em que nos entristecemos pelo pecado que cometemos e quando queremos nos livrar dele.

Se Paulo vivesse em nossos dias, estaria condenando os humanistas seculares do tímido século XX, sitiando as fortalezas do pensamento moderno que têm tomado conta de nossa mente e nos cegado quanto à verdade. Realmente existem espíritos sedutores e doutrinas de demônios. Vemos tudo isso trabalhando em nosso mundo hoje. Somos levados a pensar que temos problemas em vez de pecado. Nossas doutrinas modernas, baseadas em vidas destituídas da vida de Deus, nos dizem: “Está tudo bem comigo e com você”, em vez de dizer: “Todos pecaram e carecem da glória de Deus…”.

Disciplina em ação

Fui tomar café com um pastor que estava cercado de problemas. Ele quase havia perdido sua igreja.

Os membros do coral sabiam, havia bastante tempo, que o ministro de música cometera atos de homossexualismo. Ele se envolveu a ponto de isto se tornar público.

Por muito tempo, ninguém disse nenhuma palavra sequer. Estavam todos esperando que alguma coisa acontecesse e uma mudança ocorresse. Por fim, o segredo vazou e chegou até ao pastor. Depois de muita oração e de uma busca diligente da verdade, chegou o momento em que o pastor e o ministro de música se encontraram para confrontar a questão. O ministro de música admitiu tudo.

- Você precisa decidir entre duas coisas – disse-lhe o pastor, de modo direto. – Deve arrepender-se ou renunciar. O ministro de música considerou as hipóteses e tomou sua decisão de modo muito bem pensado: não faria nem uma coisa nem outra. Em vez disso, começou a buscar apoio, primeiramente entre os membros do coro e, depois, entre a congregação.

Em pouco tempo, uma comissão de membros do coro pediu uma reunião com o pastor.

- Você não entende – disse o porta-voz. – Ele simplesmente tem um problema. Se nós o cercarmos de amor e compreensão, isto vai ajudá-lo e ele vai se livrar do problema.

- Sou eu quem não entende? – retrucou o pastor. – Se vocês o cercarem com amor e compreensão e se ele não tiver de se arrepender de seu pecado, então ele nunca conseguirá se livrar do problema.

As linhas de batalha estavam formadas. A comissão se espalhou pela igreja, ateando mais fogo ainda, arregimentando mais pessoas para ficarem contra o pastor piedoso a quem eles acusavam de não ser amoroso. O burburinho cresceu. Houve uma reunião tumultuada e, por intervenção divina, o pastor piedoso permaneceu.

O ministro de música saiu, levando consigo muitos simpatizantes. A igreja passou por momentos difíceis, mas Deus confirmou a posição piedosa daquele pastor. Hoje, a igreja está mais forte do que nos dias anteriores à crise. O próprio pastor é um homem mais forte.

Sabedoria humana versus sabedoria divina

A sabedoria humana debocha da verdade do Evangelho.

A diferença entre a sabedoria humana e a divina, especificamente com relação ao pecado, é que a sabedoria humana deseja encobri-lo. Adão tentou fazer isso no jardim. Primeiro, de modo simbólico, ao cobrir sua nudez. Depois, foi muito além disso, à medida que começou o processo de autojustificação, colocando a culpa de sua falta em Eva, de modo a encobrir seu próprio pecado.

Cubra-se – culpe outra pessoa.

Esta sabedoria falha continua a operar nos dias de hoje. O escândalo de Watergate tornou-se o clássico exemplo moderno de como acobertar alguma coisa. O enfraquecido mas resoluto pastor recusou-se a permitir que a sabedoria humana e o sentimentalismo se colocassem no caminho da justiça divina. Ele não permitiria que um pecado fosse encoberto e chamado de “um problema”.

A psicologia comportamental não tem nenhum livro-texto que seja adequado para lidar com o escopo do dilema humano. Deus escreveu o Livro sobre salvação dos pecados muito antes de a psicologia aparecer com a idéia de “resolução de problemas”.

Deus ordena obediência à sua palavra. Ele não admite coisas da moda quando estas violam a soberania de sua Palavra. Nossa atitude de não intervir não é simpática a Deus: é abominação a ele; e ele nos ordena – não nos convida, mas ordena – o arrependimento e a obediência.

A distância entre a sabedoria divina e a humana é astronomicamente grande. Em nossa sabedoria carnal reordenamos nosso sistema de valores de acordo com nossos desejos. O homem olha para sua tecnologia espacial, seus ternos Armani, um exemplar da Time e pensa que é sábio. Ele aprende e ensina uma filosofia que somente traz perguntas e nenhuma resposta. Associa-se a uma ciência que zomba da criação bíblica, ainda que não seja capaz de oferecer nada em troca, a não ser uma teoria sem comprovação sobre aquilo que ela crê ser a evolução.

“Quem entre vós é sábio e entendido?” é o que Tiago 3:13 nos pergunta incisivamente. O versículo seguinte continua: “Se, pelo contrário, tendes em vosso coração inveja amargurada e sentimento faccioso, nem vos glorieis disso, nem mintais contra a verdade”. Nosso mundo atormentado cheio de inveja, amargura e problemas – é o produto de nossa própria sabedoria mundana.

A sabedoria humana ensinou uma geração de líderes a crer que quanto maior o endividamento melhor será sua economia – uma filosofia que levou vários países à beira da ruína econômica. O sofisticado espírito da era moderna, baseado na sabedoria humana, traz discórdia, dor e, por fim, ruína.

É verdade que, desde o Éden, o homem não melhorou sua natureza. Ele pode ter mais conhecimento técnico, mas sua natureza continua a mesma. Dizer que a humanidade melhorou por causa da excelência técnica do homem é como dizer que um canibal está melhor porque usa garfo e faca.

“A sabedoria, porém, lá do alto”, conclui Tiago no versículo 17 do mesmo capitulo, “é, primeiramente, pura; depois, pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento”. Isto é sabedoria divina.

A sabedoria humana que nos manda sair para fazermos nossas coisas não é a sabedoria que vai nos levar à terra de Canaã. Você jamais poderá maximizar seu potencial até que tenha recebido a sabedoria de Deus.

Chame as coisas pelo nome

Os namorados que vivem juntos longe dos laços do matrimônio são fornicadores.

O adolescente desbocado é um zombador.

Deus não tem prazer em devaneios semânticos: ele fala a língua dos homens. As Escrituras colocam os pingos nos “is”: pecado é pecado.

Não haverá respostas inesperadas quando a “pessoa com problemas” se confrontar com uma eternidade sem Cristo. Os pecados serão Ievados a sério naquele momento – ainda que seja tarde demais. A “síndrome da Playboy” ou “necessidades biológicas”, assim como os “problemas” homossexuais não mais existirão.

Precisamos começar a enfrentar o pecado como homens.

Extraído do livro “Vitória sobre a Tentação”, Editora Mundo Cristão.